Um pastor na cidade

Mal o Sol se levanta, o pastor pega no cajado, liberta o rebanho e abre o caminho por entre os prédios da cidade Amadora e os estaleiros das obras da CREL. Ouvem-se balidos e buzinas de condutores entediados em hora de ponta. Todos os dias, faça chuva ou sol, desce colina abaixo, em direcção ao metro. O contraste entre tão urbana referência e a pastorícia estranha-se. Em José António Antunes entranhou-se. É um pastor da cidade, assim tal definição exista. Um dos últimos resistentes da vida local de outros séculos, resignado ao desinteresse de quem passa e à queda dos preços do leite, da lã e do gado. Quem mora na Amadora, a quarta cidade mais populosa do País, com 175 872 habitantes, foi-se habituando à sua presença improvável e avessa aos sinais dos tempos. Não é difícil dar com o pastor perto da paragem do autocarro ou ser obrigado a parar o carro para que o seu rebanho de 200 ovelhas atravesse a estrada. Nem todos lhe facilitam a vida. “Há quem pare logo, mas os mais apressados buzinam sem paciência para esperar”, desabafa. Talvez se esqueçam de que foram eles que chegaram depois. José António nasceu ali mesmo, na Serra da Mira – mesmo ao lado do novo paraíso do consumo, o Dolce Vita Tejo -, mas há 51 anos, quando os moinhos ainda eram os edifícios mais altos e pomposos do lugar. Em meio século, viu a cidade crescer, sobretudo “após o 25 de Abril, com a vinda dos retornados de África”, levando-lhe os campos de trigo em troca de urbanizações dormitório, auto-estradas e centros comerciais. Já a família, toda natural da Amadora, se dedicava ao gado e José António tomou-lhe o gosto “ainda miúdo”, quando acompanhava o pai e o rebanho serra abaixo. Chegou a ter outra profissão – foi operador de máquinas durante “muitos anos” – mas a crise e a pacholice do pastoreio falaram mais alto, acabando por vender a frota para comprar o actual rebanho. “O negócio andava de mal a pior e como sempre adorei isto, vendi as máquinas e investi tudo o que tinha ganho – e mais o que tinha guardado – nestas ovelhas”, confessa, encolhendo os ombros, com as mãos pousadas no cajado, como que desculpando-se. As finanças, agora, não andam melhor. “Começava a mugir as ovelhas às cinco da manhã, depois vinham os leiteiros comprá-lo, faziam os testes todos e levavam o leite. Dois dias depois telefonavam a dizer que o leite estava estragado e nem sombras do dinheiro. Acabei por desistir. O leite já só serve para alimentar os borregos. Queijo também já não se pode fazer. É proibido. Agora é tudo feito em fábricas. E isto é mesmo por amor à camisola, porque não dá dinheiro nem para comprar um par de sapatos”, garante José Antunes, que nesses tempos vendia cada litro de leite a 80 cêntimos. A lã do ano passado ainda está “lá toda acumulada”, no casebre onde guarda os animais – paredes-meias com o complexo desportivo do Monte da Galega, onde em tempos treinava o Sport Lisboa e Benfica – e a tosquia deste ano só vai para a frente porque a natureza dos animais assim o exige. A tosquia é feita com a ajuda de um sobrinho, ainda com “uma tesoura das antigas, pois as máquinas não fazem o trabalho com a mesma perfeição”. Dependendo do tamanho, idade e género do animal, uma ovelha pode custar até cem euros, mas “o mais provável, nos tempos que correm, era receber no máximo 25”. Por tão pouco não as venderá. Basta-lhe sentir o peito encher-se de orgulho quando olha o seu rebanho, mesmo que tenha de continuar a viver do magro ordenado da mulher, que trabalha nas limpezas numa escola local. “Compramos tudo fora – a carne, os cereais, a fruta. Um dia ainda fecham isto e ficamos sem nada para comer. Mas as pessoas não sabem dar valor a isto e muito menos compreendem a falta que faz”, diz. José António nunca foi à escola e só sabe escrever “algumas coisas”, mas à conta dos outros que não entendem o seu ofício já se viu na qualidade de professor. “Os miúdos de agora – e até alguns graúdos – não fazem a mínima ideia do que é um animal. Às vezes lá me aparecem uns professores, com crianças pela mão, para verem o rebanho e elas fartam-se de fazer perguntas. Dizem coisas giras, à maneira das crianças. Mas também já houve uma professora que disse ‘olhem estas cabrinhas, meninos’. Avisei-a de que não eram cabras, mas sim ovelhas. Ela respondeu que era tudo a mesma coisa”, recorda com sorriso aberto, sem ponta de mágoa. Lá em casa, o exemplo não é muito diferente. O filho de 30 anos, motorista de pesados, actualmente desempregado, não quer “saber desta vida para nada”. “Nem aqui põe os pés”, lamenta o pastor. Como escolheu o princípio básico – fazer o que lhe dá prazer – não lhe falta alento, que renova 365 dias por ano (sem sequer “falhar na manhã do dia de Natal”), das cinco da manhã às dez da noite. Nem uma broncopneumonia, no Inverno passado, lhe tirou a rotina. Será assim enquanto uma nova urbanização não lhe roubar o pasto. Por acaso, já ouviu rumores sobre novas construções nos parcos quilómetros quadrados de verde que ainda lhe restam. Só a ideia fá-lo franzir a testa de preocupação: “Quando isso acontecer terei de vender as ovelhas. Não há mais volta a dar. O problema é que eu gosto disto, sabe? Não sei bem porquê, mas gosto de sair com os animais todos os dias, ter a terra debaixo dos pés”. Quando não está nos campos deixa-se ficar pelo casebre, tratando da tosquia, das patas dos animais, velando-lhes pela saúde e segurança, a “coisa mais importante para qualquer pastor”. Quando o Sol se esconde, e a urbe se agita com o frenesim do regresso a casa, José António põe o ferrolho no curral, deixando-o bem guardado pelo Farruco, o Macaco e a Dançarina, os três fiéis rafeiros que o acompanham nas lides. Só então ruma a casa. A tal onde nasceu, de piso térreo, na Serra da Mira, pois as vizinhas torres de betão não têm o mesmo encanto…

in Correio da Manhã

José é o único pastor na cidade da Amadora – Reportagem SIC

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